segunda-feira, março 30, 2009

1º A MORRER, de James Patterson

Em uma narrativa de tirar o fôlego, James Patterson nos apresenta as integrantes do Clube das Mulheres Contra o Crime, às voltas com um serial killer que assassina homens e mulheres que acabaram de se casar.

No Estado da Califórnia, um assassino é movido por bizarra compulsão: esfaquear homens e mulheres que acabaram de casar. Esse serial killer sente prazer em ceifar as vidas de pessoas apaixonadas, sendo capaz de matar com requintes de crueldade e alto grau de frieza.

Inconformadas com a atuação da polícia, que não consegue solucionar o caso, quatro mulheres incríveis vão se unir em torno de um objetivo comum: encontrar, prender e superar o diabólico assassino.

Lindsay é a inspetora de homicídios da delegacia de polícia da cidade. Claire é médica-legista. Jill, assistente da promotoria. Cindy, por sua vez, é a mais nova repórter da seção policial do San Francisco Chronicle. Elas sabem que, se unirem suas forças, coragem e inteligência, têm alguma chance de pôr fim à onda de mortes que assola a cidade, mas não imaginam que a verdade, nesse caso, vai abalar todas as suas convicções.

Livro: 1º A MORRER
Autor: JAMES PATTERSON
Editora: Rocco
1ª Edição (2008)
Páginas: 376
ISBN: 9788532523310


Comentários de alguns dos Ts&Ts sobre 1º A MORRER:

W@L: Esse thriller é sensacional. Parte de um argumento aparentemente banal e já bastante explorado (assassinatos em série, uma investigadora com problemas pessoais, etc, etc. e tal) para presentear os leitores do gênero com uma trama inovadora e com boa pegada. Embora não chegue a ser uma história surpreendente, ela não tem aquele gosto de déja-vu. A partir da terceira parte o livro ganha em velocidade e surpreende a capa página. Nada é previsível e quando o leitor acha que solucionou o mistério, vem uma reviravolta e ele retorna à estaca zero. James Patterson é incansável na sua capacidade de escrever boas histórias.

Agente 1986: O que dizer deste livro? A idéia do clube das mulheres contra o crime, nas mãos de um autor desastrado (tipo um David Gibbins da vida, ou um Peter Harris, ou um Noah Charney) naufragaria muito fácil. Mas James Patterson é craque e craques podem jogar medianamente uma vez ou outra, mas jamais serão pernas de pau. Patterson deu vida a um assassino metódico de recém-casados e a uma inspetora de homicídios, Lindsay Boxer, atormentada por um problema raro e grave de saúde, acrescentou alguns temperos, uns cenários glamourosos, deu uma mexida boa e o resultado foi um livro muito agradável de ler, apesar de alguns lances meio inverossímeis que não chegam a comprometer o conjunto. Não é uma história policial mulherzinha, muito menos uma trama do tipo As panteras, então os leitores homens podem perder a desconfiança e ler 1º a morrer numa boa.

Mrs. "M": Os dois primeiros capítulos de 1º a morrer são impactantes e chocam o leitor logo de cara, para não deixar dúvidas sobre o que vem a seguir. E o que vem a seguir é uma trama muito boa, que prendeu minha atenção. Fazia muito tempo que eu não lia um livro de James Patterson e 1º a morrer foi um ótimo retorno às obras desse grande escritor, que eu adoro. Além do assassino e sua mente perturbada e perturbadora, as personagens Lindsay e Claire são as melhores. Lindsay e seu drama com a tal da anemia de Negli, é uma personagem complexa e carismática, nem boazinha e nem durona demais. Uma figura bem próxima da realidade da mulher urbana contemporânea. A tragédia que ela viveu no final foi de fazer chorar. Cindy e Jill me entediaram um pouco, principalmente Cindy e seu jeito crazy de jornalista "sou jovem-atrevida-posso tudo", mas elas foram bem construídas por Patterson. Já estou curiosa para ler os novos livros da série. Editora Rocco, não demore, please.

Martina Memory: 1º a morrer é um livro que engana uma porção de vezes à medida que é lido. E enganou até a mim, que sou leitora veterana de thrillers. A parte final, quando os crimes são finalmente desvendados é emocionante em todos os sentidos, digna de um mestre. James Patterson soube despistar o leitor muito bem, como poucas vezes vi. Só o epílogo é que achei um pouco forçado. Não precisava aquilo, foi apelativo demais e quase estragou tudo. O bom seria se o livro tivesse acabado na página 368. Também a história do disfarce não convenceu muito. E não é só a aparência. Fico perguntando como "Phillip Campbell" disfarçou a própria voz.

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segunda-feira, março 23, 2009

SOBRE MENINOS E LOBOS, de Dennis Lehane

Em SOBRE MENINOS E LOBOS, dor e violência arrastam o leitor numa trama em que as perspectivas de vida e de realização não ultrapassam os sufocantes limites de dois bairros historicamente construídos em torno do crime.

O carro marrom, quadrado e comprido, do tipo usado pelos detetives de polícia, encostou perto dos três meninos que ensaiavam uma briga de rua na violenta periferia de Boston. Aturdidos com a inesperada abordagem, Sean e Jimmy viram o amigo Dave ser levado por dois homens que, ao que tudo indicava, perteciam ao corpo da polícia. No entanto uma brusca mudança na atmosfera daquela manhã - subitamente mais sombria - os advertiu de que havia algo errado: uma simples disputa entre três garotos de onze anos não era caso para uma interveção desse tipo.

Vinte e cinco anos mais tarde, Sean, agora policial da Divisão de Homicídios, é escalado para cuidar do assassinato da bela filha de Jimmy. Distantes desde a época do seqüestro de Dave, os três companheiros voltam então a se encontrar e, espelhados nas águas correntes do rio Mystic, tentarão se livrar definitivamente do que ficou tanto tempo à margem.

Livro: SOBRE MENINOS E LOBOS
Autor: DENNIS LEHANE
Editora: Companhia das Letras
1ª Edição (2002)
Páginas: 552
ISBN: 9788535903058


Comentários de alguns dos Ts&Ts sobre SOBRE MENINOS E LOBOS:

Gisele Letras: Sobre meninos e lobos é apresentado como um romance policial. Mas sempre o achei muito mais um thriller. É verdade que grande parte da trama gira em torno de um assassinato e é verdade, também, que um dos protagonistas é um policial. Mas como todos os personagens estão muito diretamente ligados aos dilemas dramáticos da história, a narrativa foge um pouco ao modelo do romance policial clássico, incluindo alguns dos outros livros do próprio Dennis Lehane.

Augusta Tietê: A história é boa, mas não me empolgou do jeito que eu achava que ia empolgar. Gostei mais do filme. Lehane pesa a mão em alguns momentos e tem páginas e mais páginas do livro que cansam com tantas descrições. Cheguei a ter vontade de pular algumas, mas resisti. Não é um livro agradável do tipo "a justiça será feita, tudo será resolvido e tudo, no fim, dá certo". Todos os três protagonistas vivem seus dramas de forma intensa e o leitor sente como se estivesse acontecendo com ele.

Léo Bloom: Melhor livro de Dennis Lehane, o que ele vai mais fundo na psiquê dos protagonistas. O cara tem que saber escrever para conseguir fazer o que ele fez. Misturar uma trama de mistério com conflitos psicológicos de três personagens e se sair bem é uma proeza e Lehane conseguiu. A primeira parte, em 1975, quando Dave é levado pelo carro marrom é assustadora. Jimmy é um personagem ambíguo do qual eu gostei, apesar de tudo. É humano, mas com acessos violentos de desumanidade. Um homem capaz de amar a filha e sofrer que nem um cão com a morte dela e, ao mesmo tempo, cometer uma injustiça brutal sem se mostrar arrependido.

London Hilton: O livro é bom, os dramas dos três personagens principais são bem explorados, mas fiquei um pouco decepcionada com a parte da investigação em si. Me pareceu que o assassinato de Katie Marcus, filha de Jimmy, não passou de um pretexto para fazer os três amigos de infância se reencontrarem e relembrarem a ferida de 25 anos atrás, quando Dave foi seqüestrado por dois maníacos. Sim, porque a solução do crime foi ridícula. Nem vou comentar aqui, mas quem leu sabe. Para quem gosta de thrillers, Sobre meninos e lobos pode decepcionar. Já quem espera ler um romance de mistério com elementos diferenciados e algum aprofundamento existencial, o livro funciona bem.

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Nota de Flavia Andrade: Sobre meninos e lobos foi lançado no cinema em 2003, com direção de Clint Eastwood. No elenco, Sean Penn (Jimmy), Kevin Bacon (Sean) e Tim Robbins (Dave), entre outros. O filme fez grande sucesso e recebeu seis indicações para o Oscar, em 2004: melhor ator (Sean Penn), melhor ator coadjuvante (Tim Robbins), melhor atriz coadjuvante (Marcia Gay Harden), melhor roteiro adaptado, melhor direção e melhor filme. Faturou os dois primeiros. Sobre meninos e lobos está disponível em DVD e, para adquiri-lo no Submarino, é só clicar AQUI.

segunda-feira, março 16, 2009

ATLANTIS, de David Gibbins

Misturando ficção com dados históricos reais, ATLANTIS é um thriller diferente, no qual tudo poderia ser verdade.

Fascinado durante séculos pelo mito da Atlântida, o homem nunca parou de procurar pela ilha fabulosa, um lugar mais avançado que qualquer outro, cujo povo vivia em harmonia e grande fartura. A sociedade perfeita que repentinamente afundou entre as ondas nos primórdios da história, não deixando nenhum rastro sobre o seu paradeiro e protegendo seus grandes segredos dentro das próprias paredes.

Um dia, no entanto, o arqueólogo marinho Jack Howard teve sorte. Enquanto mergulhava em busca de um naufrágio do tempo de Homero, no Mediterrâneo, sua equipe descobriu o que poderia ser a chave para localização da cidade perdida. Armado com a experiência que tinha feito dele um dos mais renomados profissionais, Jack saiu em busca daquilo que outros haviam tentado encontrar durante milhares de anos.

E ele está prestes a fazer uma descoberta assombrosa - que iria apaziguar os demônios que o perseguiam. Mas alguém mais ficou sabendo da localização da Atlântida... e Jack e sua equipe são repentinamente envolvidos em um jogo de vida ou morte cujas conseqüências podem destruir muitas vidas. Porque aquilo que Jack descobre está além de seus sonhos mais fantasiosos - e a revelação será obtida a um preço terrível.

Livro: ATLANTIS
Autor: DAVID GIBBINS
Editora: Planeta
1ª Edição (2006)
Páginas: 440
ISBN: 9788576651413


Comentários de alguns dos Ts&Ts sobre ATLANTIS:

Bentinha Escobar: Teve um blog chamado Libru Lumen que elegeu Atlantis o pior livro lido em 2007. Pois eu o elegi o pior livro lido em 2008. Por mim, ele nem apareceria aqui no Textos & Thrillers, porque pode funcionar como propaganda. E quanto menos publicidade essa porcaria tiver, melhor. Então prefiro não comentar.

Eça de Assis: Atlantis é um thriller muito chato. Arrastado, confuso e extremamente inverossímil. O protagonista, Jack Howard, é a soma de todos os piores clichês, além de não ter carisma nenhum. O mito de Atlântida, que rendeu grandes romances contemporâneos como A queda de Atlântida, Morte na Atlântida, Morte no colégio, e Atlântida - o oitavo continente, foi muito mal explorado. Não empolga, não entretê, não informa. Mas pode servir de sonífero. Bola fora da Planeta.

Beta Langdon: Comecei a ler Atlantis com interesse. A capa é chamativa, o tema interessante e tudo fazia crer que se tratava de um thriller poderoso. Mas já no segundo capítulo, meu interesse murchou e no quarto eu não queria mais prosseguir com a leitura, de tão chata. Por que David Gibbins não escreveu um tratado sobre pesquisas arqueológicas e geológicas? Teria sido muito mais honesto da parte dele e os pobres leitores crédulos como eu, seriam poupados do constrangimento de ler um romance tão, mas tão ruinzinho.

H. Ester: Comparar David Gibbins com Dan Brown como está na contracapa do livro é um absurdo. Gibbins não poussui nem uma migalha do talento do autor de O código Da Vinci, não sabe contar uma história, não consegue prender a atenção do leitor, enche o livro com informações técnicas e científicas complicadas e sem nenhuma função na trama, os personagens são previsíveis, sem graça, sem charme... Nada nesse livro se salva. Nem sei se Atlantis pode ser chamado de "thriller", porque o suspense é quase nenhum. E o pior é que a Editora Planeta ainda teve a coragem de publicar um outro romance de Gibbins, que me disseram ser ainda pior do que Atlantis, porque nem o tema é atraente. Nunca mais lerei um livro desse autor.

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segunda-feira, março 09, 2009

O ÍCONE, de Gary Van Haas

Ícone, eikón, ónos (grego) / s. 1. Imagem pictórica.2. Imagem religiosa convencional, geralmente pintada sobre pequenos pedaços de madeira, usada para adoração na Igreja Ortodoxa. (Dicionário Webster's).

O ÍCONE é um suspense com muita aventura que se passa nas ilhas gregas nos dias de hoje. Conta a história de Garth Hanson, um jovem pintor americano, a quem é encomendada a cópia de um ícone famoso. A encomenda, na verdade, é uma chantagem, e Hanson cai nas mãos de uma quadrilha internacional. À medida que a trama vai se desenvolvendo, fica claro que esse ícone é muito mais do que um ícone famoso: é a chave para documentos da era cristã que foram perdidos no mar Morto. Esses documentos estiveram na posse dos Cavaleiros Templários no ano de 1099.

A obra está sendo roteirizada para o cinema (Green-light sheet), que terá como atores Pierce Brosnan e Catherine Zeta-Jones e será filmado na Grécia e no Reino Unido, em uma co-produção. O livro, quando publicado em 2000, obteve boa tiragem de venda (600 mil exemplares) por uma editora pequena. Os direitos autorais já foram vendidos para 15 países, que se interessaram após saberem da estréia para o cinema.

Livro: O ÍCONE
Autor: GARY VAN HAAS
Editora: Prumo
1ª Edição (2008)
Páginas: 216
ISBN: 9788561618551


Comentários de alguns dos Ts&Ts sobre O ÍCONE:

W@L: Bom livro. Pouco pretensioso. Competente. Sem muito em comum com a média dos thrillers. O autor tem uma linguagem que flui e sabe contar uma história. A ambientação é caprichada. Pelas descrições de Gary Van Haas, é possível visualizar com muita nitidez a beleza das ilhas gregas, o mar refletindo o brilho do sol, o calor no verão da caótica Atenas... Me senti transportada para lá. A gente sente que existe um mistério por trás do desejo de se obter o tal ícone, que vai além do ícone propriamente dito e isso alimenta o mistério, que acaba servindo de combustível à trama.

Paty Faria: Não me empolgou. A trama é linear e meio previsível. O livro quase não tem suspense, só arranca de verdade lá pela página 175 (o livro tem 214) e mesmo assim sem muito fôlego. O final é sem graça e não causa muito impacto. Talvez se eu tivesse lido o livro na época em que ele foi lançado (em 1999 ou 2000, antes de O código da Vinci e seus descendentes) a minha impressão fosse diferente. Mas a sensação foi de um déja-vu. Sinceramente, esperava mais.

Martina Memory: O ícone é um livro interessante, mas eu poderia passar sem ele. Sinceramente, pelo visual da capa, pelo texto de apresentação e pela empolgação da nossa webmaster, Flavia Andrade (que deve ter sido a primeira pessoa a comprar o livro), esperava mais. Mas não foi uma leitura perdida. Uma das coisas que esse livro mostra é a diferença entre um livro escrito por um homem e um escrito por uma mulher, quando não são muito talentosos. Esse é, claramente, escrito por um homem. Todos os detalhes da trama - das descrições dos carros, à forma como o narrador fala das mulheres - são inegavelmente pontos de vista masculinos. Tudo bem que o livro é narrado na primeira pessoa. Mas senti falta de uma certa delicadeza. Mesmo assim, O ícone tem um clima sutil de suspense que combinado com o charme da ambientação na Grécia, torna a leitura agradável. Tem uma hora, mais para o final da história, em que acontece o clímax e o suspense aumenta. Não sei se leria um outro livro de Gary Van Haas.

Agente 1986: Gostei muito deste O ícone. Foi uma grande idéia a de Gary Van Haas e tenho a impressão que Dan Brown deu uma lida nesse livro antes de escrever O código Da Vinci (para quem não sabe, O ícone, que está sendo lançado só agora no Brasil, saiu nos Estados Unidos em 2000). Isso precisa ser levado em conta. Além disso, o autor tem uma grande qualidade: não enche linguiça. O protagonista, Garth Hanson é o que muitos homens gostariam de ser: malandro, artista, namorador, tem todas as mulheres aos seus pés, viaja e ainda passa por aventuras nas Ilhas Gregas. Lendo o livro, toda hora me dava vontade de largar tudo aqui para o alto e me mudar para Míconos para levar a vida que ele leva, com os bons amigos que tem (Eugene e Dmitri) e as mulheres que encontra (Linda e Maria). Sensacionais as sacadas de Gary Van Haas para a fortaleza do casal gay Bryan e Fredericks, com seus "pupilos" Eric e Jacinto e para a composição do vilão, Meissner. De resto, morri de calor aqui com a descrição do verão grego que parece ser ainda mais forte do que o brasileiro.

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segunda-feira, março 02, 2009

HORA ZERO, de Joseph Finder

Em HORA ZERO, Joseph Finder expõe a vulnerabilidade da rede de computadores mundial frente a possíveis planos terroristas, e adverte para a fatalidade: o colapso na economia global.

Quando um telefonema é interceptado pelos satélites espiões da Agência Nacional de Segurança no céu da Suiça, a agente especial do FBI Sarah Cahill, mãe de um menino de oito anos, é convocada urgentemente para Nova York para conduzir uma investigação que se transforma imediatamente em perseguição desesperada a um brilhante terrorista mercenário, altamente sofisticado e carismático — o Príncipe das Trevas —, que fugiu da prisão de segurança máxima Pollsmoor, na África do Sul. Sarah inicia uma caçada intensa e absolutamente secreta a um homem excepcionalmente perigoso cuja identidade ela não conhece — muito embora ele a conheça intimamente.

De uma hora para outra, Sarah e o filho mergulham em um apavorante labirinto de intrigas, um jogo de gato e rato que põe em perigo suas vidas, forçando Sarah a correr para descobrir uma conspiração terrorista... antes do momento crítico e decisivo, a hora zero.

Valendo-se de entrevistas com agentes da CIA, FBI e até terroristas, Joseph Finder constrói um enredo com impressionante número de informações técnicas, como estratégias de comunicação via satélite, mecanismos de montagem e detonação de bombas, falsificação de documentos e o uso de sistemas de ponta na identificação de impressões digitais.

Livro: HORA ZERO
Autor: JOSEPH FINDER
Editora: Rocco
1ª Edição (1999)
Páginas: 476
ISBN: 9788532509437


Comentários de alguns dos Ts&Ts sobre HORA ZERO:

Mrs. "M": Nessa época em que deu a louca no mercado financeiro e a economia mundial se encontra de pernas pro ar, falar de um thriller como Hora Zero é bem oportuno. Não é o melhor livro de Joseph Finder, mas é muito bom e prende mesmo a atenção. Mais uma vez o grande personagem é o antagonista, Baumann. A agente Sarah Cahill é interessante, mas é uma figura meio esquemática, como muitas outras heroínas de thrillers. E é ela a responsável pelo grande "mico" do livro: como uma agente experiente do FBI se deixa enganar com tanta facilidade por um homem daquela maneira?

London Hilton: Depos que li Hora Zero me bateu uma dúvida: será que o atual colapso financeiro tem a ver com algum atentado contra a Network? Será que algum especulador espertinho leu o thriller de Joseph Finder e decidiu dar uma de Baumann? O livro corre num ritmo acelerado, mas o leitor não se perde em nenhum momento. A história é bem verossímil e até os lances absurdos se tornam factíveis. Muito comédia a cena em que Sarah Cahill flagra o presidente do Manhattan Bank, Warren Elkind numa sessão sadomasoquista e ele, com a cabeça encapuzada, pergunta a ela: "Sim, Soberana?" Tudo narrado com muita classe, mas não deu pra não rir.

Léo Bloom: Hora Zero é fenomenal. Aliás, não conheço um thriller de Joseph Finder que não seja. O cara tem o dom da agilidade, mas sem deixar escapar nada. Ele distribui as informações necessárias muito bem ao longo da narrativa e o leitor não se perde. A trama tem duas estrelas: Baumann e Malcom Dyson, o vingativo milionário americano preso a uma cadeira de rodas que o contrata. A fuga de Baumann da prisão na África do Sul, logo nas primeiras páginas, é sensacional e já dá a idéia de como será o resto da história. As cenas em que Dyson aparece são marcantes. E ainda tem o homem que Dyson quer destruir, o banqueiro Warren Elkind, fissurado em rituais sadomasoquistas com dominadoras profissionais, um elemento inusitado que torna a história ainda mais humana e crível.

Macabéio: Gosto dos livros de Joseph Finder, mas este, especialmente, não me agradou muito. Toda a ação de Hora Zero é bastante previsível, os protagonistas, a começar por Sarah Cahill, não têm brilho, não encantam o leitor. O lado dos antagonistas também não ajuda muito. Todas as ações de Baumann são inverossímeis, não convencem
. A forma como ele mata as pessoas, torcendo o pescoço delas é meio repugnante e chega uma hora que cansa. As mortes não têm emoção, a investigação não tem emoção. Nem a perseguição final tem muita emoção. Baumann realmente pensava que iria escapar? Faltou densidade à trama e alguns dos personagens do núcleo de Cahill poderiam ser eliminados sem problemas. Além disso a questão principal do livro — a ameaça de colapso da Network —, não tem apelo dramático o bastante para mobilizar os leitores contra as vilanias de Baumann e Malcom Dyson. A hora é zero e a minha nota para o livro também é.

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segunda-feira, dezembro 22, 2008

Pausa para balanço e leituras

A partir de hoje, o TEXTOS & THRILLERS entra em recesso de verão. Por causa da estrutura do blog, que é vinculado a um grupo de leitura, seria difícil manter o ritmo no período entre o Natal e o Carnaval. É uma época em que todo mundo aqui sai de férias, sendo que muitos viajam com a família. Ficaria complicado reunir o grupo para as discussões semanais em torno dos livros que vamos ou não comentar. Então, decidimos que, ao invés de uma pequena pausa de fim de ano (que era o nosso plano inicial), faríamos um retiro mais prolongado até o final de fevereiro. A idéia é aproveitar esses dois meses e uns quebradinhos para adiantar a leitura dos thrillers que serão divulgados no blog em 2009.

Portanto, aguardem nosso retorno, a princípio, para 2 de março de 2009. Uma segunda-feira, claro.

Até lá vocês podem dar mais uma olhada nas postagens com os livros já comentados e com as crônicas super da hora, escritas por nossos colegas do Ts&Ts, sobre alguns personagens memoráveis de grandes thrillers que a gente leu. Olha eles aí:

* ROBERT LANGDON, do thriller ANJOS E DEMÔNIOS, de Dan Brown
* VITO CORLEONE, do thriller O PODEROSO CHEFÃO, de Mario Puzo
* MARIE-CÉCILE DE l´ORADORE, do thriller LABIRINTO, de Kate Mosse
* EVELYN WAKIM, do thriller 120 HORAS, de Luis Eduardo Matta
* ALEC LEAMAS, do thriller O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO, de John Le Carré


Beijabraços da Flavia Andrade e de toda a comunidade do Ts&Ts

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Quando Alec Leamas ainda não tinha ido para o frio

por Eça de Assis, de Berlim

Meu pai era engenheiro e trabalhava para uma empreiteira americana que tinha escritório no Brasil. Nos anos 50 ele foi mandado para a Alemanha Ocidental para um treinamento, já que o país vivia uma espécie de boom imobiliário depois da Segunda Guerra. Moramos (eu, ele, minha mãe e minha irmã) primeiro em Munique e em 1961 nos mudamos para Berlim Ocidental, já com o muro erguido e todo aquele clima sombrio da Guerra Fria.

Berlim Ocidental era um vibrante enclave capitalista no meio das trevas da Alemanha comunista. Muita gente pensa que a cidade ficava situada na fronteira entre as duas Alemanhas, mas não era verdade. Berlim ficava literalmente “dentro” da Alemanha Oriental e isso fazia da cidade um lugar ainda mais tenso. Já nessa época eu adorava romances de espionagem, como os de Graham Greene e de Ian Fleming. Era um filão que estava começando a conquistar leitores pelo mundo. E em Berlim a gente respirava espionagem.

Eu devia ter uns 15 pra 16 anos quando fui à festa de aniversário de uma colega de escola, na casa dela, perto da Potsdamer Straβe. Meus pais eram muito liberais e não se incomodavam que eu chegasse tarde em casa, contanto que eu não os acordasse. Talvez por eu ser filho homem (minha irmã nunca desfrutou das mesmas regalias). Por volta da meia-noite, eu e dois dos meus amigos mais próximos, Hans e Peter, resolvemos sair para dar uma volta pela cidade. Tínhamos bebido muita cerveja e estávamos meio altos. Fomos caminhando sem rumo pela Potsdamer Straβe sem ter muita idéia de para onde estávamos indo. Passamos sobre o Landwehr Kanal e continuamos andando, sentindo que a paisagem ia ficando cada vez mais vazia, árida, sinistra mesmo, com ruínas de construções destroçadas na Segunda Guerra Mundial. Não tinha quase ninguém na rua. Além de nós, o que víamos eram veículos militares, soldados, policiais... Estávamos altos, mas não totalmente bêbados para perceber que nos aproximávamos do muro. O que só atiçou ainda mais os nossos ânimos.

Eu nunca tinha visitado a área do muro, mesmo morando em Berlim há uns meses. Aliás, para ser bem franco, eu nem sabia direito o que representava aquele muro, embora já tivesse 15 anos. Mas eu sabia que o “lado de lá” era inimigo. Diminuímos o passo por uma rua mais estreita e avistamos, lá no final, luzes brancas de holofotes iluminando um paredão que só podia ser o dito cujo. Vimos sacos de areia empilhados, jipes, blindados e alguns carros civis parados e eles eram cada vez mais numerosos à medida que nos aproximávamos. Andamos um pouco mais e vimos uma placa que dizia “YOU ARE LEAVING THE AMERICAN SECTOR”. A frase era repetida abaixo em russo, francês e alemão. Concluímos que não estávamos apenas perto do muro, mas num dos pontos de comunicação entre as duas metades da cidade dividida. O lugar que ficou conhecido como Checkpoint Charlie.

Percebemos que alguns soldados nos olhavam com cara de poucos amigos. Foi quando um Opel freou atrás de nós, quase nos atropelando, enquanto atravessávamos a rua já tomando o caminho de volta. Retornamos à calçada, enquanto o carro estacionava e um homem de meia-idade, vestindo uma capa comprida e com um chapéu na cabeça, saltou desembestado. Ele veio na nossa direção, gritando em alemão:

— O que vocês pensam que estão fazendo?! Quem são vocês?!

Pálidos de susto, não conseguimos falar nada, apenas gaguejamos um princípio de resposta. O homem estreitou os olhos para nos examinar.

— Control? — ele perguntou, apenas.

Olhamos de volta para a placa do posto militar. Se ali era um dos locais de passagem entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental, é claro que devia ser também um posto de controle. O homem só podia estar se referindo a isso. Vai ver ele queria ir pra lá e estava meio perdido. Eu tomei a frente e respondi, fazendo um gesto com a cabeça em direção à placa:

— Sim.

O homem relaxou, mas não muito. Ele estendeu a mão para nos cumprimentar:

— Sou Alec Leamas. Vocês foram pontuais.

Eu e meus amigos nos olhamos, sem entender patavina.

— Paul vai atravessar o muro a qualquer momento. O relatório está quase pronto. Estou apenas esperando as informações que ele ficou de nos trazer. Quando vocês chegarem em Londres, amanhã, vão encontrar um assessor de Control no aeroporto. Vocês devem entregar o relatório para ele.

Foi aí que a gente entendeu que Alec Leamas era um espião. E que Control devia ser o codinome do chefe dele.

— Você é inglês? — eu perguntei, falando em inglês.

— Claro. Que pergunta mais idiota... — ele respondeu mal-humorado.

Caminhamos pela Zimmer Straβe até uma cabine. Leamas nos apresentou a um militar fardado, que saiu de dentro dela:

— Esses são os nossos emissários, major. Control tinha mesmo avisado que, desta vez, mandaria pessoas “insuspeitas”. Garotos, esse é o Major Stuart Brown, do exército americano.

O homem sorriu para nós e disse.

— Nosso homem em Berlim Oriental já deve estar se preparando para atravessar o muro. Vamos logo — ele apontou para um prédio a uns duzentos metros do posto de controle. O prédio ficava recuado na calçada, estrategicamente afastado das sentinelas comunistas.

Fomos subindo os andares por uma escada escura. Leamas falou:

— A missão é arriscada. Paul nos traz informações sobre Mundt. É de surpreender que tenha saído vivo.

— Ainda não sabemos se ele saiu vivo, Sr. Leamas. Só saberemos depois que ele passar para o lado de cá. Se ele passar.

Chegamos a uma sala no último andar, de onde se tinha uma vista privilegiada do muro e do lado oriental. A sala funcionava como um posto avançado de operações da CIA e do serviço secreto inglês. O major nos ofereceu café. Leamas apanhou a primeira xícara e depois eu e meus amigos nos servimos. Além de suavizar o frio, o café funcionou para quebrar o efeito de toda a cerveja que a gente tinha bebido. Leamas foi até uma janela. O major lhe entregou um binóculo.

— Um homem numa bicicleta — Leamas disse. — Parou no primeiro controle e foi levado à barraca dos VoPos para verificação de documentos.

— É Paul? — o major perguntou.

­— Sim — Leamas respondeu sem desgrudar do binóculo.

— Vou descer. Vão precisar de mim lá quando ele passar. Eu o trarei aqui.

Leamas afastou-se da janela e perguntou ao major:

— Vocês têm como protegê-lo quando estiver atravessando a fronteira?

— Só se os VoPos atirarem contra o nosso setor. Mas eles não vão fazer isso.

Leamas murmurou alguma coisa mal-humorada em resposta, que não deu para ouvir. O major saiu da sala e ele voltou a se concentrar no binóculo.

Terminamos nosso café e deixamos as xícaras de lado. Tentando parecer íntimo da situação, perguntei:

— Como Paul está se saindo?

— Acabou de ter os documentos verificados. Está, agora, no segundo controle.

— É um bom sinal?

— Não sei. Ele está demorando mais do que o habitual.

Paul passava agora pelo controle aduaneiro. Leamas torcia para que as informações que ele trazia estivessem muito bem escondidas. Ou ocultas nas páginas de um livro ou algo assim. Ele não sabia o método que Paul usaria desta vez.

A bicicleta foi liberada e logo a seguir foi parada por dois soldados comunistas, que fizeram algumas perguntas rápidas. Leamas suava frio. Faltava pouco.

— Acho que conseguimos... — Leamas falou animado. Mas a animação não durou. Empurrando a bicicleta, Paul passou. Estava a poucos passos da linha de demarcação quando ele foi iluminado pelo clarão ofuscante dos holofotes. Uma sirene ressoou, estridente. Um soldado atirou. Paul caiu. Ele ainda estava oficialmente no lado oriental. Leamas se desesperou:

— Valha-me Deus!!!

Leamas largou o binóculo e saiu ventando da sala. Fomos para a janela. Em um minuto ele estava se juntando ao major, na rua. Dali a gente via Berlim Oriental mergulhada na escuridão. Estávamos numa terra de ninguém, cortada por aquela coisa hedionda que era o muro. O informante de Leamas foi trazido para o lado ocidental. Leamas, a princípio, tentou reanimá-lo, mas vendo que não havia mais jeito, tentou localizar as tais informações que ele trazia. Não encontrou nada. Na certa, os homens de Mundt já tinham se apoderado de tudo, sem que o próprio Paul se desse conta.

Leamas estava fora de si e gritava com todo mundo à volta dele. Percebemos que ia sobrar pra gente. Resolvemos cair fora. Descemos correndo as escadas e voltamos ao frio da rua. Uma neblina rala começava a cobrir a madrugada. Despertos graças ao café, tomamos o caminho de volta. Sentimos um alívio à medida que a vibrante Berlim Ocidental foi ganhando forma novamente, com seus letreiros, seu barulho de automóveis e sua modernidade capitalista que contrastava com o panorama desolador do entorno do muro. Quando passamos pelo Landwehr Kanal, eu jurei que tão cedo não daria as caras na zona do muro. E cumpri o juramento. Só agora, depois de tantos anos do retorno ao Brasil, é que voltei a Berlim, a uma Berlim reunificada. Mas ficou na memória essa madrugada em que conhecemos Alec Leamas, antes que o famoso espião entrasse no frio para sair mais tarde nas páginas de John Le Carré.

Nota de Flavia Andrade: Nosso colega "Eça de Assis" se inspirou no começo de O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO,
de John Le Carré, para descrever este encontro com Alec Leamas.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Quem tem medo de Evelyn Wakim?

por Martina Memory, de Beirute

Em 2008 o carnaval caiu muito cedo, no iniciozinho de fevereiro. Por causa disso o trabalho na minha empresa ficou acelerado além da conta em janeiro, que é o mês em que sempre tirei minhas férias. Sou divorciada, sem filhos, e costumo aproveitar as férias pra viajar. Para mim é uma terapia, a melhor que tem. Como meu chefe pediu que eu ficasse na empresa em janeiro, acabei transferindo minhas férias para março, já que fevereiro estava muito em cima, e programei uma ida à Itália. Quatro dias em Milão, quatro em Roma, e os outros sete, como já é costume meu, seriam decididos por lá mesmo, meio que no improviso. Talvez Florença, talvez Veneza... Na hora eu veria o que me desse melhor na telha.

Enquanto eu arrumava minha bagagem, percebi que em março de 2008 faria dez anos da época em que é ambientado um dos meus thrillers preferidos, 120 horas, de Luis Eduardo Matta, que se passa quase todo em março de 1998. Como o livro tem cenas em Roma, não pensei duas vezes e coloquei-o na minha bolsa. Durante o vôo Brasil-Itália, o reli todinho. 120 horas é um romance maravilhoso, com personagens antológicos. Além da trama de mistério e suspense com um tempero dramático, os personagens me marcaram demais. Quando cheguei a Roma, depois de passar por Milão, saí com o livro embaixo do braço percorrendo todos os lugares citados na história: a Via Veneto, a Via del Corso, a Via Condotti, a Piazza Esedra, o bairro com vista para o Coliseu onde Aurélio Amorim tinha alugado um apartamento... Fiquei emocionada e foi aí que eu tive uma idéia meio doida. Meio, não: totalmente doida. Já que eu tinha sete dias restantes, porque não viajar para o Oriente Médio, onde a ação principal do livro se concentra?

O Líbano ficava mais ou menos perto. Poucas horas de avião, calculei. No meu hotel me recomendaram uma boa agência de turismo próxima. Fui até lá e acertei tudo em menos de uma hora: um vôo de ida e volta para o Líbano e reserva num hotel quatro estrelas. Na volta, eu faria uma conexão na Itália pra tomar o avião que me traria para o Brasil. Excitadíssima, corri para o hotel para arrumar minha mala. Na tarde do dia seguinte eu aterrissava em Beirute, capital do Líbano.

Esqueçam as bombas, esqueçam os homens barbudos com turbante e metralhadoras, esqueçam todas as notícias de guerra que chegam até a gente pelos jornais. Beirute é uma metrópole linda, moderna, chiquérrima, cheia de hotéis charmosos, lojas finas de grifes européias de renome, cafés em estilo francês e uma vida noturna agitadíssima que me lembrou Madrid. As pessoas são bonitas e se vestem com elegância, ainda mais com o gostoso friozinho europeu que estava fazendo. O trânsito denso, por outro lado, é bem paulistano. Beirute pode se parecer com muita coisa, mas não com uma cidade do mundo árabe. Sempre com o 120 horas na mão, eu passei quatro dias zanzando pelas ruas, procurando ao vivo os lugares onde se desenrolavam as ações no livro, que além de thriller se revelou um guia pra lá de competente. Caminhei pelo passeio à beira do Mediterrâneo chamado de Corniche, onde ficava o apartamento da estilista Randa Nohra (o prédio estava lá). Na Rua Verdun localizei o lugar onde ficava a butique de Randa e imaginei que ela tivesse sido colocada abaixo para dar lugar a um supermoderno edifício comercial (ele parecia recente, o que confirmava que ainda não existia em 1998). Na Rua Sursock reconheci um casarão que correspondia às descrições da residência de Gabriel Karam. Na Rua Hamra vi o edifício de fachada de vidro onde funcionava o escritório do primo Émile, que foi incendiado na noite do desfile da grife de Randa Nohra. Tudo parecia tão real... Se os cenários existiam, será que a toda a ação do livro também tinha acontecido de verdade?

Eu fiquei me perguntando isso, quando criei coragem pra chegar ao ponto máximo da visita: o edifício que abrigava a sede da AMI Lloyd, a mega-empresa de navegação da poderosa e impiedosa Evelyn Wakim Pietrangeli.

O prédio, ainda segundo o livro, ficava perto de onde eu estava. Andei poucas quadras. Logo o reconheci. Seu nome era (é) Liberty Tower e é um arranha-céu listrado de branco e preto com não sei quantos andares. Na entrada, um chafariz. Entrei no saguão da recepção e, casualmente, informei, em inglês, que precisava ir ao escritório da AMI Lloyd. Coloquei o meu exemplar de 120 horas sobre o balcão. Minha intenção era fazer uma brincadeira para falar do livro, mas o rapaz que me atendeu respondeu com naturalidade:

— Nono andar. Seus documentos, por favor?

Me lembrei que no livro, o escritório ficava no nono andar. Será que o rapaz estava falando sério ou estava tirando uma com a minha cara de gringa? Quando eu olhei para o painel, perto dos elevadores, vi que ele falava sério: lá estava, ocupando a coluna do nono andar, o nome da AMI Lloyd.

Passei meu passaporte a ele e ele perguntou, segurando o telefone:

— A quem devo anunciá-la, senhora?

Engoli em seco, mas fui em frente:

— À Dona Evelyn Wakim.

O recepcionista espiou o relógio.

— São mais de cinco da tarde. A essa hora Dona Evelyn já deve estar saindo. Mas vou tentar assim mesmo.

Meu Deus do céu, o que estava acontecendo? Então Evelyn Wakim, minha “ídola” na ficção, existia? Se ela fosse como no livro, não ia gostar da minha visita. Mas antes que eu pudesse pensar em dar no pé, a porta de um dos elevadores se abriu e uma mulher elegante saiu de dentro dele. Ela tinha a pele branca, o cabelo muito escuro e bem arrumado e vestia um terninho com um mantô por cima dos ombros. Carregava uma bolsa e uma pasta. Estava de óculos escuros. Olhei para ela e concluí que não podia ser Evelyn Wakim. Aquela era uma mulher mais idosa, que devia ter bem mais de 70 anos, quase 80. E, em 120 horas, Evelyn tinha uns 67 ou 68. Se bem que o livro se passava em 1998. Dez anos atrás. Ou seja, se viva, Evelyn Wakim teria, em 2008, 77 ou 78 anos.

A senhora foi se afastando devagar em direção à saída. Sua postura ereta e altiva era a de uma pessoa que se achava muito superior e muito importante.

O recepcionista falou, apontando para ela:

— Aquela é Evelyn Wakim. Eu disse que ela já devia estar de saída.

Não sei o que aconteceu, mas Evelyn parou de repente. Ela deve ter ouvido o recepcionista falar seu nome — e, com certeza, não ficou muito contente. Ela virou-se para nós e retirou seus óculos de sol, revelando os olhos negros, enormes, firmes e aterradores que Luiz Eduardo Matta descreveu tão bem no livro. Por alguns minutos, ficou nos olhando com aquela cara meio furiosa, meio indignada de “quem essa gente pensa que é para ousar pronunciar o meu nome?”. Com o rosto contraído, Evelyn me olhou de cima abaixo e, pela cara de repulsa que fez, pareceu não ter gostado nem um pouquinho do que viu. Ela recolocou os óculos de sol e saiu pra rua, onde um Mercedes preto já a aguardava com a porta de trás aberta por um chofer uniformizado.

O recepcionista, parecendo apavorado, correu até mim e falou, tropeçando nas palavras:

— Minha senhora, a senhora tem que sair do Líbano depressa. Ouviu bem? Depressa!!!!

— Por quê?

— Dona Evelyn é uma mulher poderosa e não gostou da sua presença aqui. Eu percebi pela maneira como ela olhou para a senhora. Corra para o aeroporto, antes que ela coloque toda a polícia de Beirute para investigar quem é a senhora e o que veio fazer no Líbano.

— Ela é tão poderosa assim?

— Muito mais do que a senhora pensa. Não perca tempo. Fuja. Eu prometo que vou manter sigilo sobre a sua identidade — ele me devolveu o passaporte e eu o guardei na bolsa.

Fiz o que ele me disse. Arrumei minha mala voando, encerrei minha estadia no hotel e, antes das oito da noite eu já estava no aeroporto. Consegui lugar num vôo que sairia pra Milão dali a três horas. O tempo de espera na sala de embarque do aeroporto foi angustiante. Eu achava que, a qualquer momento, policiais apareceriam para me levar à presença da poderosa Dona Evelyn. Mas nada aconteceu, felizmente. Na hora marcada, entrei no avião e, quando ele levantou vôo, respirei aliviada.

Foi só aí que eu me lembrei que, na pressa de fugir, tinha esquecido meu exemplar de 120 horas na portaria do Liberty Tower. Será que alguém ali teria curiosidade, algum dia, de abri-lo? E se Evelyn Wakim descobrisse que toda a história sórdida em que se envolveu há dez anos atrás estava detalhada naquele thriller brasileiro? Como ela reagiria? Será que, sem querer, coloquei o autor do livro em perigo?

Enquanto o avião rumava de volta à Itália, fiquei me perguntando quem poderia ter medo de Evelyn Wakim. Concluí que eu tenho. Mas ela continua sendo minha “ídola” assim mesmo.

Nota de Flavia Andrade: Nossa colega "Martina Memory" se inspirou no livro 120 HORAS
, de Luis Eduardo Matta, para narrar este encontro com Evelyn Wakim.