segunda-feira, junho 15, 2009

Textos & Thrillers entrevista JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS

Flavia Andrade


Nascido em Moçambique, então colônia de Portugal, em 1964, o português José Rodrigues dos Santos é, além de escritor, professor da Universidade Nova de Lisboa e jornalista, profissão onde é mais conhecido. Trabalhou na BBC, em Londres, colaborou com a CNN, e está, atualmente, na RTP — Rádio e Televisão de Portugal. Cobriu diversos conflitos ao redor do mundo, incluido Timor-Leste, Angola, Bósnia e Iraque e recebeu prêmios importantes na área, como o Contributor Achievement Award, em 2000, pelo conjunto do seu trabalho.

Autor de uma dezena de livros, José Rodrigues dos Santos publicou algumas obras ensaísticas antes de estrear na ficção, em 2002, com o romance A ILHA DAS TREVAS, que relata o drama de uma família timorense no período entre o início da ocupação indonésia no Timor-Leste e a independência do país. Mas seu primeiro thriller, O CÓDEX 632, foi lançado apenas em 2005, atingindo imediato sucesso e notabilizando o seu protagonista, o professor de História Tomás Noronha, como uma espécie de Robert Langdon português. Tomás Noronha protagoniza outros thrillers de Rodrigues dos Santos, como O SÉTIMO SELO e A FÓRMULA DE DEUS, todos publicados, no Brasil, pela Editora Record. (Entrevista concedida por e-mail, de Lisboa)


Textos & Thrillers – Por que a opção por escrever thrillers?

José Rodrigues dos Santos – Gosto da acção e da tensão inerente à escrita e à leitura dos thrillers. No entanto, procuro que os meus thrillers sejam um pouco diferentes dos habituais. Os thrillers são, em geral, puro entretenimento. Mas eu tento que os meus thrillers, para além da parte da tensão, tenham uma parte de conhecimento que seja muito forte. Por exemplo, em O Sétimo Selo procuro, através de uma história de acção, mostrar o que se passa com as alterações climáticas e revelar o problema do fim do petróleo, algo que está a acontecer e que não é noticiado.

Ts&Ts – Como se deu o começo da sua carreira literária?

JRS – Foi por acidente. Um amigo escritor, a quem eu devia um favor, pediu-me para lhe escrever um conto para a sua revista literária. Sem ter como recusar, lá comecei a redigir o conto. O problema é que me entusiasmei e, quando dei por ela, o conto já tinha 200 páginas! Foi o meu primeiro romance. O bichinho da escrita ficou e, às tantas, já estava a escrever um segundo romance.

Ts&Ts – O thriller não possui tradição na literatura em língua portuguesa e só recentemente escritores brasileiros e portugueses passaram a se dedicar ao gênero. Na sua opinião, o thriller tem chances de se firmar concretamente dentro da literatura em português ou está condenado a ser eternamente visto como uma imitação da literatura anglo-saxã, onde ele é mais forte?

JRS – Acho que o thriller se pode afirmar perfeitamente como género lusófono se os escritores de língua portuguesa entenderem bem o seu público e souberem contornar os obstáculos culturais que naturalmente se levantam.

Ts&Ts – Que elementos diferenciariam um thriller americano de um thriller português, por exemplo?

JRS – Não sei se se pode falar no thriller português ou brasileiro como sub-género. No meu caso procuro que a diferença entre os meus thrillers e os outros esteja no valor acrescentado do conhecimento. Já lhe falei em O Sétimo Selo, mas posso-lhe dar o exemplo de um outro romance meu, A Fórmula de Deus. Através de uma história de espionagem que envolve a CIA e o VEVAK, os serviços secretos iranianos, este thriller fala sobre ciência e religião e questiona coisas fundamentais como a possibilidade de provar cientificamente a existência de Deus e explorar a questão do sentido da nossa existência. Os thrillers em geral são passatempo, mas eu procuro que os meus thrillers sejam também ganhatempo - ou seja, esforço-me para que, através de uma história emocionante, os leitores aprendam algo mais sobre si e o mundo que os rodeia.

Ts&Ts – Qual a sua opinião em relação à idéia de que o thriller seria uma literatura “menor”?

JRS – O thriller será género menor se se tornar previsível e não tiver qualidade. Cabe aos seus autores emprestarem-lhe tal qualidade que ele se torne género maior. Mas também é verdade que a maior parte das catalogações tendem a ser preconceituosas e acho que nós não lhes devemos dar demasiada importância.

Ts&Ts – Está trabalhando em algum livro novo neste momento? Tem algum lançamento em vista?

JRS – Tenho, pois. O meu novo thriller vai sair em Outubro em Portugal. No Brasil acabou de sair O Sétimo Selo, lançado pela Record.


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Na próxima segunda-feira, o Textos & Thrillers entrevista
PEDRO DRUMMOND

segunda-feira, junho 08, 2009

Textos & Thrillers entrevista LUIS EDUARDO MATTA

Flavia Andrade


O mais jovem dos nossos entrevistados é também o mais veterano. Luis Eduardo Matta estreou na literatura em 1993, com o thriller CONEXÃO BEIRUTE-TEERAN. Tinha 18 anos na época e, hoje, aos 34, contabiliza seis livros publicados. A partir de 2007, com o lançamento de MORTE NO COLÉGIO, pela consagrada Coleção Vaga-Lume, da Editora Ática, passou a escrever, também, thrillers juvenis.

Durante cinco anos, Matta assinou uma coluna na revista Digestivo Cultural, onde publicou diversos ensaios em que discutiu a formação de leitores no Brasil e chamou a atenção para a escassez de uma literatura de entretenimento brasileira, que ele apelidou de LPB – Literatura Popular Brasileira. Seu thriller 120 HORAS é um dos preferidos dos membros do Textos & Thrillers, e uma das suas personagens, Evelyn Wakim, foi tema
de uma crônica aqui no blog, no final do ano passado, ao lado de personagens célebres de thrillers internacionais como Robert Langdon, Alec Leamas e Don Vito Corleone. (Entrevista concedida por e-mail, do Rio de Janeiro)

Textos & Thrillers – Por que a opção por escrever thrillers?

Luis Eduardo Matta – Desde criança tenho fascínio pela ficção de mistério e de suspense. Foram esses livros que me iniciaram no mundo da literatura. Como leitor, sempre fui bastante eclético, mas não consigo escrever um romance em que o mistério e o suspense não constituam elementos vitais no enredo. Alguns chamariam isso de limitação. Pode até ser verdade, mas eu prefiro chamar de paixão. Tenho paixão por escrever thrillers.

Ts&Ts – Como se deu o começo da sua carreira literária?

LEM – Comecei cedo, aos 17 anos. Eu estava assistindo à reprise de uma entrevista de Jorge Amado e Zélia Gattai no programa do Jô Soares, que tenho gravada até hoje, e a maneira como eles relataram as suas experiências na literatura me contagiou com tal intensidade, que decidi também escrever um livro e, se possível, dedicar minha vida à criação literária. Isso foi em janeiro de 1992. Esse meu primeiro livro, Conexão Beirute-Teeran, que é um thriller, foi publicado no ano seguinte, quando eu estava com 18 anos.

Ts&Ts – O thriller não possui tradição na literatura em língua portuguesa e só recentemente escritores brasileiros e portugueses passaram a se dedicar ao gênero. Na sua opinião, o thriller tem chances de se firmar concretamente dentro da literatura em português ou está condenado a ser eternamente visto como uma imitação da literatura anglo-saxã, onde ele é mais forte?

LEM – Tem muitas chances e isso parece que já está acontecendo. Acredito que não só o mundo lusófono, mas o mundo latino como um todo é capaz de contribuir substancialmente para alargar os horizontes do thriller e lhe dar novas possibilidades dramáticas. O problema é que existe um peso muito grande dessa influência anglo-saxã, que precisa ser diluída e retrabalhada no imaginário dos autores a fim de abrir caminho à criatividade e permitir que se crie um thriller mais desvinculado, com uma fisionomia nova. Não deixa de ser um tipo de experimentação.

Ts&Ts – Que elementos diferenciariam um thriller americano de um thriller brasileiro, por exemplo?

LEM – Essa é uma questão meio complexa. Quando escrevemos um livro, passamos para ele, ainda que não intencionalmente, nossa bagagem cultural, nossa experiência de vida, nossa visão da realidade e da sociedade, nossas paixões... Um autor brasileiro terá, necessariamente, uma formação diferente da de um norte-americano, a começar pelo idioma e pelo modo como cada qual interage com seus conterrâneos e com resto do mundo. Ao mesmo tempo, devemos considerar as diferenças individuais existentes entre os autores. Cada autor tem um itinerário existencial único e isso tende a se refletir no seu trabalho. Por isso não dá para fazer uma comparação genérica. É preciso avaliar livro a livro. Mesmo um escritor com uma longa carreira pode ter uma produção irregular, devido a mudanças de percepção operadas ao longo da vida, que deixarão marcas na sua obra.

Ts&Ts – Qual a sua opinião em relação à idéia de que o thriller seria uma literatura “menor”?

LEM – Eu sou da opinião de que as pessoas têm o direito de manifestar seus pontos de vista livremente. Existe, de fato, essa crença de que, não só o thriller, mas toda a literatura de entretenimento constitui um gênero menor. É uma crença um tanto subjetiva, como tudo relacionado à arte, mas devemos respeitá-la, ainda que não estejamos de acordo. Minha dica aos que escrevem thrillers é: não dêem muita importância a isso, inclusive porque é uma luta perdida. Escrevam pensando no seu trabalho e, quando muito, nos seus leitores. Evitem antever eventuais críticas negativas, porque isso asfixia o processo criativo e ainda pode levar a uma paranóia. Todo escritor recebe críticas e não conheço nenhum que seja unanimidade, mesmo entre os canônicos. Faz parte do jogo. Portanto, o melhor a fazer é deixar que falem o que quiserem. E agir como Nelson Rodrigues, que dizia: “se os fatos estão contra mim, pior para os fatos”.

Ts&Ts – Está trabalhando em algum livro novo neste momento? Tem algum lançamento em vista?

LEM – Estou trabalhando em dois livros simultaneamente. Além disso, tenho um thriller inédito pronto, chamado O véu, mas confesso que não estou com muita pressa em publicá-lo. Desde 2007 venho me dedicando mais à literatura juvenil, por se tratar de um ramo novo e fascinante na minha carreira e que tem demandado muito a minha atenção. Neste momento, por exemplo, estou lançando, pela Ática, meu terceiro thriller para o público jovem, O rubi do Planalto Central. Por conta disso, deixei temporariamente as narrativas adultas meio que em banho-maria. Quando eu sentir que minha literatura juvenil está mais consolidada, voltarei aos adultos e buscarei conciliar essas duas vertentes. Talvez aconteça ainda este ano, talvez no ano que vem. Vamos ver.

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Na próxima segunda-feira, o Textos & Thrillers entrevista
JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS

segunda-feira, junho 01, 2009

Textos & Thrillers entrevista IVAN SANT'ANNA

Flavia Andrade

Ivan Sant'Anna estreou na literatura em 1995 com RAPINA, thriller que tem como cenário o mercado financeiro, que o escritor conheceu de dentro, como operador, e do qual se desligou na década de 90, aos 54 anos, para se dedicar exclusivamente à literatura. Fez bem. Autor versátil e de estilo direto, bem na linha dos escritores americanos, Ivan publicou livros sobre diferentes assuntos, incluindo um sobre os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, e outro sobre o assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes, no metrô de Londres, sem esquecer, é claro, os thrillers.

E é exatamente num thriller que Ivan Sant'Anna está trabalhando neste momento. Uma história passada na fronteira do Afeganistão com o Paquistão, que o escritor conheceu pessoalmente numa visita de dois meses feita no ano passado. Foi lá, na parte antiga da cidade paquistanesa de Lahore, que ele posou para a foto que ilustra essa entrevista. O livro deverá ser lançado até o final de 2009. (
Entrevista concedida por e-mail, do Rio de Janeiro)

Textos & Thrillers – Por que a opção por escrever thrillers?

Ivan Sant’Anna – Na verdade, eu não fiz essa opção de saída. Os mercadores da noite, primeiro livro que escrevi, e segundo que publiquei, foi se tornando thriller ao longo da narrativa. O mesmo aconteceu com Rapina, segundo escrito e primeiro publicado. Escrevi com a intenção de denunciar as falcatruas do mercado financeiro e virou thriller. Deve ser algum mal congênito meu.

Ts&Ts – Como se deu o começo da sua carreira literária?

IS – Até 1993, eu não escrevia nem carta. Mas um dia sentei numa cadeira da varanda de meu apartamento e comecei a rabiscar Os mercadores da noite. Nos dois anos que se seguiram, me apaixonei pela história. Por fim, na tarde do dia 30 de abril de 1995, me levantei na sala de operações do banco onde trabalhava e disse: "Nunca mais volto aqui!". E não voltei mesmo. Eu tinha 54 anos de idade.

Ts&Ts – O thriller não possui tradição na literatura em língua portuguesa e só recentemente escritores brasileiros e portugueses passaram a se dedicar ao gênero. Na sua opinião, o thriller tem chances de se firmar concretamente dentro da literatura em português ou está condenado a ser eternamente visto como uma imitação da literatura anglo-saxã, onde ele é mais forte? Que elementos diferenciariam um thriller americano de um thriller brasileiro, por exemplo?

IS – Não gosto de teorizar sobre nada, muito menos sobre literatura. Mas no caso dos meus livros, eles não diferem nada do thrillers americanos. A idéia é a de que o leitor não consiga parar de ler.

Ts&Ts – Qual a sua opinião em relação à idéia de que o thriller seria uma literatura “menor”?

IS – É uma literatura de entertainment. Para a pessoa curtir ao final de um dia cansativo de trabalho, em um fim de semana chuvoso ou na sala de embarque de um aeroporto. Se isso significa "menor", que seja.

Ts&Ts – Está trabalhando em algum livro novo neste momento? Tem algum lançamento em vista?

IS – Com certeza. Estou escrevendo uma história ambientada na fronteira do Paquistão com o Afeganistão. No final do ano passado viajei para lá e fiquei dois meses. É uma espécie de thriller romântico, a história de Stella Ackerley, uma correspondente de guerra britânica que saiu da minha cabeça e pela qual me apaixonei. O texto final será entregue à editora no dia 25 de julho e deverá estar nas livrarias em outubro ou novembro.


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Na próxima segunda-feira, o Textos & Thrillers entrevista
LUIS EDUARDO MATTA

segunda-feira, maio 25, 2009

Como se pronuncia "thriller" em português?

Neste mês de junho, o TEXTOS & THRILLERS reservou uma novidade super especial para os amantes da literatura de mistério e suspense: uma série de entrevistas com quatro dos principais escritores de thrillers em língua portuguesa: Ivan Sant'Anna, Luis Eduardo Matta, José Rodrigues dos Santos e Pedro Drummond.

As perguntas formuladas foram praticamente as mesmas para os quatro autores, que falaram sobre suas carreiras, sobre a decisão de escrever thrillers e sobre o espaço do thriller numa literatura ― a de língua portuguesa ― onde o gênero não construiu uma tradição e onde, ainda hoje, é tido pela crítica acadêmica como literatura de segunda categoria.

As entrevistas serão publicadas sempre às segundas-feiras na ordem abaixo, obedecendo a um sorteio feito pelos membros do Ts&Ts:

01/06 - IVAN SANT'ANNA, autor de Os mercadores da noite e de Rapina
08/06 - LUIS EDUARDO MATTA, autor de 120 horas e de Ira implacável - Indícios de uma conspiração
15/06 - JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS, autor de O Códex 632 e de A fórmula de Deus
22/06 - PEDRO DRUMMOND, autor de
Lemniscata - O enigma do Rio


No segundo semestre, o blog retomará a divulgação de livros, mas num formato diferente, mais simplificado e enxuto. Quem viver, verá.

Saudações da Flavia Andrade e de todos os Ts&Ts!

segunda-feira, maio 18, 2009

MUSEU, de Véronique Roy

Ciência, filosofia, religião. O tripé que rege uma série de questões e dúvidas da Humanidade, sendo muitas vezes motivo de polêmica, ganhou vida na literatura cinematográfica da roteirista e arquivista francesa Véronique Roy.

No Museu Nacional de História Natural de Paris, eminentes cientistas encontram-se sob forte agitação: um meteorito anterior à criação do nosso sistema solar pode ser a prova da origem extraterrestre da vida na Terra. Ressurgem antigas controvérsias. Seria o homem o produto acidental da evolução ou o fruto de um “desígnio superior”, isto é, a criação de Deus?

Para passar as coisas a limpo, o diretor do Museu recorre a dois especialistas: o paleontólogo e geólogo norte-americano Peter Osmond, ateu convicto e ferrenho opositor da tese criacionista, e o italiano Marcello Magnani, astrofísico enviado pelo Vaticano. A intrépida conservadora do Museu, Léopoldine Devaire, preocupada com o repentino desaparecimento de um baú no interior da instituição, ajudará os dois em seus trabalhos.

Entretanto, logo após sua chegada, Peter Osmond faz uma descoberta macabra: a bióloga Anita Elberg é encontrada num aposento escuro pavorosamente dissecada. A polícia francesa abre as investigações, mas não avança no caso. E, pior: durante sete dias, outros assassinatos não param de se suceder. Osmond, Magnani e Léopoldine decidem se unir para descobrir a verdade e pôr um fim nos atos bárbaros que têm abalado a instituição.

Livro: MUSEU
Autor: VÉRONIQUE ROY
Editora: Bertrand Brasil
1ª Edição (2008)
Páginas: 378
ISBN: 9788528613568


Comentários de alguns dos Ts&Ts sobre MUSEU:

Martina Memory: Confesso que não entendi o porquê deste livro ter sido tão incensado e elogiado, inclusive (como, aliás, virou moda) com comparações absurdas com Dan Brown. A ponto do Le Parisien ter tido o topete de afirmar que Museu contém MAIS brilhantismo do que O Código da Vinci. Para começar o livro não tem um centésimo do ritmo dos thrillers de Dan Brown. Além disso, a história é muito confusa, entupida de debates chatíssimos sobre Ciência, Religião, Darwin, etc, com personagens insípidos e um final ridículo, que encerra uma trama agonizante, presunçosa e sem nexo. Por que Véronique Roy, nesse livro de estréia, não escreveu uma obra de não-ficção falando do Museu Nacional de História Natural de Paris e dos embates entre criacionistas e darwinistas? Para que se meter a escrever um thriller?

W@L: O tema de Museu é muito interessante e atual. Sem contar que é sempre bom ler thrillers escritos por escritores de fora dos Estados Unidos e Inglaterra. Mas ele podia ter sido mais bem desenvolvido. Para começar, há personagens demais e suspense de menos. Os crimes cometidos ao longo da trama não chegam a chocar como o esperado; quando muito, dão uma sensação de que a autora apelou, tentando criar uma atmosfera de terror macabro, sem conseguir. Dos personagens, gostei da dupla Peter Osmond - padre Marcello Magnani e achei engraçado o interrogatório do mal-humorado professor Servan. As descrições do Museu de História Natural de Paris e as várias explicações sobre fatos históricos e científicos são interessantes, dá para sentir que a escritora realmente sabe do que está falando, mas isso não basta para criar um thriller de verdade. Os personagens precisam de mais alma, o suspense precisa ser mais elaborado e o final, menos previsível (descobri quem era o assassino na metade do livro).

Beta Langdon: A leitura de Museu não engana: a gente logo vê que é a obra de estréia de uma autora sem intimidade com thrillers. O livro é arrastado, em nenhum momento pinta um clima de suspense (há algumas tentativas, todas fracassadas) e a gente até perde o interesse de descobrir a identidade do assassino, o que é uma coisa imperdoável num romance de mistério. A "conspiração" que Véronique Roy monta envolvendo cientistas e criacionistas fanáticos não é forte o suficiente para sustentar o livro. Diversos fios da trama ficam soltos, como o caso do meteorito e os personagens em excesso atrapalham demais o núcleo de protagonistas, formado por Peter Osmond, padre Magnani e Léopoldine Devaire. Osmond tem momentos engraçados, é um personagem simpático que podia ter sido melhor trabalhado. Léopoldine é uma heroína sem tempero e sem carisma. Não chega a existir um duelo de fato entre Religião e Ciência, como a sinopse do livro sugere e o anunciado "horror que não conhece limites" não é nada mais que uma sequencia de crimes apelativos contra personagens apagados ou antipáticos com quem o leitor pouco se importa. De positivo, pode-se dizer que o livro é muito bem escrito (ou traduzido), os cenários são bem apresentados e a trama é inteligente e instrutiva. Mas faltou emoção e um conflito realmente forte que mobilizasse o leitor.

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segunda-feira, maio 11, 2009

O SÓCIO, de John Grisham

Em O SÓCIO, John Grisham mostra ao leitor, em poucos passos, como funcionam as engrenagens no mundo dos ladrões de colarinho-branco. Como roubar e ser bem-sucedido tendo como ferramentas apenas um pouco de coragem e muita astúcia.

Danilo Silva foi vigiado dia e noite durante meses antes de ser seqüestrado. Morava sozinho, levava uma vida pacata, de hábitos simples, em uma modesta casa na cidade de Ponta Porã, no Brasil. Cidadão acima de qualquer suspeita, ainda assim o seqüestraram e o arrastaram para um cativeiro no Paraguai, torturando-o quase até a morte.

Mas Danilo tinha um passado de várias identidades. Danilo Silva na verdade era Patrick Lanigan, um brilhante advogado americano que dera um golpe de mestre em sua ex-firma de advocacia, desviando 90 milhões de dólares de um cliente para o seu próprio bolso. Como o conseguira?

Perseguido pelo FBI e pelo cliente, rivais numa caçada que alia agentes americanos e brasileiros, Patrick acaba sendo encontrado, e é aí que têm início os seus problemas ou seriam os dos seus captores? É o que John Grisham nos dirá, mais uma vez no seu estilo direto e sem floreios.

Livro: O SÓCIO
Autor: JOHN GRISHAM
Editora: Rocco
1ª Edição (1997)
Páginas: 416
ISBN: 9788532507693


Comentários de alguns dos Ts&Ts sobre O SÓCIO:

Gisele Letras: Grande momento do mestre dos thrillers de tribunal, John Grisham. Para nós, brasileiros, o livro tem um tempero a mais, pois parte da trama se passa aqui e Grisham descreve o Brasil com conhecimento de causa e bastante familiaridade, já que ele costuma (ou costumava) visitar o país com freqüência. Só impliquei um pouco com o nome da protagonista brasileira: Eva Miranda. Não que ele seja absurdo ou artificial, mas é que me pareceu um contraste com toda a descrição fiel que ele fez do Brasil. A impressão é a de que o escritor teve preguiça de pesquisar um nome feminino mais elaborado. Para mim, ele se inspirou em Carmen Miranda, conhecidíssima nos Estados Unidos, para criar o sobrenome e escolheu o primeiro nome, Eva, por ser bíblico, e poder, a priori, ser usado em qualquer país ocidental.

Léo Bloom: Autor de thrillers melhores, John Grisham não decepciona em O sócio, mas também não empolga muito. É um livro que se lê numa boa, inclusive quando ele descreve com detalhes o interiorzão do Brasil, como a cidade de Ponta Porã. É claro que ele esteve por lá. O começo, apesar de violento, com a tortura a Patrick Lanigan, prende a atenção, não chega a ser repugnante e o final é surpreendente. Mas ainda prefiro A firma e A confraria.

H. Ester: O sócio é o tipo de livro em que a gente esquece um pouco a ética nossa de cada dia e chega a achar bacana e interessante um plano de fuga absolutamente abominável, em que o protagonista Patrick Lanigan dá um golpe, simula a própria morte, larga a família e se refugia numa cidade pequena, distante e escondida no mapa. Mas com o avançar das páginas, as motivações de Lanigan vão ficando mais claras e a trama, no começo aparentemente simples, se torna complexa e eletrizante, além de emocionante. Muitos autores de thrillers, principalmente desses thrillers que se aproveitaram do filão de O Código da Vinci, e têm andado em moda, deveriam ler mais os livros de John Grisham, um escritor que domina a técnica de construir uma boa trama de suspense. É um autor que aprecio muito desde que li A firma.

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segunda-feira, maio 04, 2009

O ÚLTIMO TEMPLÁRIO, de Raymond Khoury

Em seu romance de estréia, Raymond Khoury, consagrado roteirista de cinema e televisão, narra de forma ágil e inquietante uma busca a segredos que poderão abalar os pilares do cristianismo.

Durante o ataque muçulmano, em 1291, à antiga cidade de Acre, no Reino Latino de Jerusalém, a galé Templo do Falcão zarpa, levando um pequeno grupo de cavaleiros, entre eles o jovem templário Martin de Carmaux, seu mestre, Aimard de Villiers, e um misterioso baú a eles confiado pelo grão-mestre da Ordem dos Templários momentos antes de sua morte. O barco desaparece sem deixar rastro.

Sete séculos depois, na cidade de Nova York, quatro homens vestidos de templários e montados a cavalo irrompem na festa de abertura de uma exposição de relíquias do Vaticano no museu Metropolitan, espalhando pânico e roubando os objetos expostos. A arqueóloga Tess Chaykin, uma das convidadas da festa, testemunha quando um dos cavaleiros, que parece liderar o grupo, se atem, como num ritual solene, a um único objeto: um misterioso decodificador medieval.

Após o incidente, o FBI instaura uma investigação sobre o caso liderada pelo especialista em anti-terrorismo Sean Reilly. Juntos, Reilly e Tess se envolvem em uma corrida mortal por três continentes em busca do local de descanso do Templo do Falcão e da perturbadora verdade sobre a sua carga.

Livro: O ÚLTIMO TEMPLÁRIO
Autor: RAYMOND KHOURY
Editora: Ediouro
1ª Edição (2006)
Páginas: 476
ISBN: 9788500018459


Comentários de alguns dos Ts&Ts sobre O ÚLTIMO TEMPLÁRIO:

Bentinha Escobar: O Último Templário é um entre vários livros que pegaram carona no sucesso de O Código da Vinci. Como todos os outros, não conseguiu nem chegar perto do best-seller de Dan Brown. O livro é mal escrito, tem um encaminhamento decepcionante e fracassa ao tentar aprofundar algumas idéias de forma inoportuna, coisa que não cai muito bem num thriller. Acho que o fato de o autor ser roteirista de cinema atrapalhou bastante o desenvolvimento da trama. Pois o livro lembra mais um roteiro do que um texto literário. Não emociona, nem cria suspense. Não recomendo.

London Hilton: Um thriller cinematográfico, eletrizante e cheio de adrenalina a cada página. Não consegui desgrudar de O Último Templário até o final. Ao misturar história com os tempos atuais, o autor criou um livro fascinante e de ritmo acelerado. Os protagonistas, Tess Chaykin e Sean Reilly são bem construídos, carismáticos e cativantes. E as reflexões sobre fé e religião apresentadas pelo autor cabem bem a todos nós hoje em dia. De todos os thrillers religiosos que apareceram depois de O Código da Vinci, este O Último Templário, junto com Labirinto, de Kate Mosse, é um dos melhores.

Augusta Tietê: Esse livro de estréia do roteirista Raymond Khoury começa muito bem. O prólogo narra com emoção a tomada da cidade de Acre, em 1291, pelos muçulmanos e a expulsão dos cruzados e Cavaleiros Templários da Terra Santa. E nos primeiros capítulos se dá o grande momento do livro, com a invasão dos homens a cavalo à exposição no Museu Metropolitan de Nova York (como é que eles conseguiriam isso na vida real, hein?). Depois, o livro vai perdendo força gradualmente até naufragar num final ridículo, que não justifica toda a trama construída atrás. Nas mãos de um autor mais hábil, o livro poderia ficar melhor, pois tem um argumento forte. Mas como é o primeiro trabalho de Raymond Khoury, acho que podemos dar um desconto pra ele.

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segunda-feira, abril 27, 2009

O RITUAL DA SOMBRA, de Eric Giacometti e Jacques Ravenne

Envolvido no misterioso universo da maçonaria francesa, O RITUAL DA SOMBRA conta a história de uma investigação sobre dois assassinatos, comandada pelo comissário Antoine Marcas, mestre maçom, e sua parceira, Jade Zewinski.

Em Roma, uma arquivista é morta segundo um ritual que lembra a morte do fundador da franco-maçonaria. Em Jerusalém, um arqueólogo, com uma pedra enigmática em mãos, é assassinado de modo semelhante.

Sessenta anos após a queda do III Reich, os arquivos dos franco-maçons, roubados pelo alemães, parecem ser o motivo do derramamento de sangue. E quem pode estar por trás desta trama é a sociedade Thulé, adversária ancestral da maçonaria.

Obra de ficção escrita por Eric Giacometti, jornalista - não maçom - e Jacques Ravenne - maçom no Rito Francês -, O RITUAL DA SOMBRA nos leva aos bastidores de uma sociedade considerada secreta e traz um espantoso esclarecimento sobre o III Reich.

Livro: O RITUAL DA SOMBRA
Autores: ERIC GIACOMETTI e JACQUES RAVENNE
Editora: Objetiva/Suma de Letras
1ª Edição (2008)
Páginas: 400
ISBN: 9788560280070


Comentários de alguns dos Ts&Ts sobre O RITUAL DA SOMBRA:

H. Ester: Sempre tive uma implicanciazinha com livros escritos em dupla. O ritual da sombra só serviu para aumentar ainda mais essa implicância. O livro começa superbem, primeiro com as cenas na Alemanha no fim da Segunda Guerra e, depois, com os crimes em Israel e na embaixada francesa em Roma. Mas alguma coisa não funciona direito a partir do meio e a trama vai ficando aguada, sem sal e apelativa. Chego a pensar que Eric Giacometti escreveu um pedaço do livro e Jacques Ravenne o outro. Mas fico sem saber qual deles escreveu o começo bom e qual deles resolveu estragar tudo da metade pro final.

Agente 1986: Os milhares de problemas de O ritual da sombra começam com os próprios protagonistas. Antoine Marcas e Jade Zewinski são bisonhos, para dizer o mínimo. Mas pior que eles são os vilões, os membros da ordem Thulé. Porque, às vezes, os mocinhos são chatos, mas os vilões são interessantes e salvam o livro. E em O ritual da sombra nem isso acontece. As soluções dos conflitos que surgem no enredo são amadoras e bobinhas. Os autores parecem não saber como agir em determinadas situações que eles mesmos construíram e decidem resolvê-las da forma mais simplória, para continuar a narrativa. É o caso, por exemplo, da cena entre a "Afegã" (apelido ridículo) e Marie-Anne no quarto do castelo de Chevreuse. A cena foi tão improvável e inverossímil, que deu vontade de largar o livro ali mesmo.

Beta Langdon: O ritual da sombra é um livro que pode ser dividido em dois. Tem uma ótima primeira parte que vai, mais ou menos, até a perseguição a Béchir, em Paris, o que equivale a um pouco mais da metade do livro. E tem uma horrorosa segunda parte que vai daí até o final. Os personagens também podem ser divididos em duas categorias: os sem-graça - incluindo os protagonistas, Antoine Marcas e a "Afegã" Jade Zewinski - e os asquerosos - incluindo Béchir, Marie-Anne e, principalmente, o "jardineiro". O livro chega a ter algum suspense, mas o que se destaca mesmo são algumas cenas macabras, gratuitamente apelativas, que não ajudam em nada a trama e parece que foram colocadas ali para satisfazer as taras de algum leitor sádico. Mesmo assim o livro tem bons momentos como o de Béchir na loja de cogumelos alucinógenos, em Amsterdã, a da festa na embaixada da França, em Roma e a da perseguição a Béchir na noite de Paris.

Eça de Assis: Fiquei meio decepcionado com esse O ritual da sombra. Um thriller que prometia muito, mas que foi perdendo gás, até um final agonizante. Esperava mais de um livro lançado pela coleção Suma policial, com todo o capricho de um projeto gráfico vistoso e um tema interessante. Valeu mais pelas explicações sobre a Maçonaria e as descrições das cerimônias nas lojas maçônicas, do que pela trama, que tem pouco suspense e poucos atrativos. É incrível que um livro como esse tenha sido publicado no seu país de origem e traduzido para outros idiomas, porque é fraco demais para o que se propõe.

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